sexta-feira, 22 de maio de 2020

entregue-se às águas

seu corpo busca pele em úmidas madeiras de demolição
mantendo algum tipo de dança por entre os destroços
violentamente delicada
 
recobrir sua fluidez com alguma coisa dura
para que ninguém transpasse coisa nenhuma
estranhamente decidida
 
vejo que um tipo de corpo muito duro
usufrui de seus desejos de manter tudo em ordem
completamente deslocada
 
espero que um dia deixe desandar tudo
que se dê por vencida em algumas batalhas: ah as águas
absolutamente entregue


quinta-feira, 21 de maio de 2020

incendiada

pele repuxada tentando recobrir outras dores

pele fina por cima de sangue grosso

morta de vontade

cheia de cicatrizes

e silêncios


quarta-feira, 20 de maio de 2020

paralelas perpendiculares

nosso ângulo realmente não é mutável

e os cálculos nunca estiveram certos

por mais que eu mexa nessas linhas

as palavras serão sempre o mesmo retrato

que revelei e deixei na sua mesa

 

sei, não é da nossa natureza minuciosos planos

e os coeficientes não fazem nenhuma diferença

por mais que a gente arraste firme os fios

a deflexão do tempo é certa.






                                                                                                                       para àquele que nunca deixou de estar aqui.

terça-feira, 19 de maio de 2020

voltei a escrever na quarentena


começar a falar é um exercício natural para a maioria das pessoas que conheço. abre a boca, que deve estar um pouco úmida de saliva, dá uma cafungada no ar, pensa rapidamente na ordem das palavras, fala.

começar a escrever é diferente. percebo a dificuldade. logo cedo, ainda na escola, as crianças recebem os modelos de escrita. "o que você sente, o que você quer dizer, deve caber aqui". crianças sentem demais. elaborar nessa idade é só um começo. as pautas da folha tornam-se dez vezes mais do que vinte. "quantas linhas, professora?". "no mínimo dez", cem.

eu aprendi a elaborar cedo, de acordo com meus conhecidos. escrever cedo, ler cedo, desenhar cedo. em casa, no meu diário, não tinha muito isso modelo de escrita. a parede da minha casa era folha A0, gigante. e tinha também minhas dificuldades com a escrita, com a vírgula, com os verbos. mas continuava escrevendo.

falar era um pouco mais complicado até meu irmão nascer. depois desenvolvi uma maneira ingenua e infantil de fala, na adolescência falei demais, nossa, como falei. na faculdade, experimentando tudo, acho que foi meu corpo que falou. depois, lendo o tanto que eu li, emudeci. aos vinte e poucos comecei a usar as palavras como profissão, professora. na sala de aula sou uma atriz. nem me reconheço. desenvolta, cheia de dicção, leitura dinâmica, dramática, um sucesso. fora da sala de aula, um sorriso ameno.

todo esse rodeio para dizer que, agora na quarentena, voltei a escrever. acho que é porque não estou atuando em sala de aula. mas estou com saudades. não sei.


segunda-feira, 18 de maio de 2020

Nem míngua, nem água.

O estrangeiro que guarda suas palavras, comunica-se com gestos, olhares, toques. Àquele que diz e não é compreendido, exerce o silêncio. O silêncio como falha na comunicação. O que fica no ar. O que se espalha. O pequeno silêncio: entrelinhas.

O estrangeiro me ensinou sobre silêncio, assim como o mar me ensinou sobre movimentos: por observação. Calculo que fomos feitos para esses pequenos silêncios, os grandes nos devora, quando sobra, morre à míngua. Nunca vi alguém voltar desse escafandro, morre-se sufocado de si.

Eu me pertenço menos quando falo, já observei também. Mas essa é uma peculiaridade que construí enquanto andava. Me relacionar com as pessoas me transformou. As pessoas exigem demais de mim, o mundo, as imagens, os números, as presenças, minhas ausências...

O silêncio nada me exige, além do meu mais honesto silêncio. Posso fechar os olhos, posso sorrir sem explicar, chorar quando me derramo, sem um A. Me preencho de ser eu e silêncio.

Mas como fui feita para o pequeno e epifânico silêncio, acabo escrevendo, tomando esse café.


beira-mar

a sombra do arranha-céu escureceu o mar por um minuto vi petróleo no lugar da sutileza da sombra a água escura dançava ao som dos ventos  me...