segunda-feira, 18 de maio de 2020

Nem míngua, nem água.

O estrangeiro que guarda suas palavras, comunica-se com gestos, olhares, toques. Àquele que diz e não é compreendido, exerce o silêncio. O silêncio como falha na comunicação. O que fica no ar. O que se espalha. O pequeno silêncio: entrelinhas.

O estrangeiro me ensinou sobre silêncio, assim como o mar me ensinou sobre movimentos: por observação. Calculo que fomos feitos para esses pequenos silêncios, os grandes nos devora, quando sobra, morre à míngua. Nunca vi alguém voltar desse escafandro, morre-se sufocado de si.

Eu me pertenço menos quando falo, já observei também. Mas essa é uma peculiaridade que construí enquanto andava. Me relacionar com as pessoas me transformou. As pessoas exigem demais de mim, o mundo, as imagens, os números, as presenças, minhas ausências...

O silêncio nada me exige, além do meu mais honesto silêncio. Posso fechar os olhos, posso sorrir sem explicar, chorar quando me derramo, sem um A. Me preencho de ser eu e silêncio.

Mas como fui feita para o pequeno e epifânico silêncio, acabo escrevendo, tomando esse café.


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