terça-feira, 19 de maio de 2020

voltei a escrever na quarentena


começar a falar é um exercício natural para a maioria das pessoas que conheço. abre a boca, que deve estar um pouco úmida de saliva, dá uma cafungada no ar, pensa rapidamente na ordem das palavras, fala.

começar a escrever é diferente. percebo a dificuldade. logo cedo, ainda na escola, as crianças recebem os modelos de escrita. "o que você sente, o que você quer dizer, deve caber aqui". crianças sentem demais. elaborar nessa idade é só um começo. as pautas da folha tornam-se dez vezes mais do que vinte. "quantas linhas, professora?". "no mínimo dez", cem.

eu aprendi a elaborar cedo, de acordo com meus conhecidos. escrever cedo, ler cedo, desenhar cedo. em casa, no meu diário, não tinha muito isso modelo de escrita. a parede da minha casa era folha A0, gigante. e tinha também minhas dificuldades com a escrita, com a vírgula, com os verbos. mas continuava escrevendo.

falar era um pouco mais complicado até meu irmão nascer. depois desenvolvi uma maneira ingenua e infantil de fala, na adolescência falei demais, nossa, como falei. na faculdade, experimentando tudo, acho que foi meu corpo que falou. depois, lendo o tanto que eu li, emudeci. aos vinte e poucos comecei a usar as palavras como profissão, professora. na sala de aula sou uma atriz. nem me reconheço. desenvolta, cheia de dicção, leitura dinâmica, dramática, um sucesso. fora da sala de aula, um sorriso ameno.

todo esse rodeio para dizer que, agora na quarentena, voltei a escrever. acho que é porque não estou atuando em sala de aula. mas estou com saudades. não sei.


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