quinta-feira, 20 de agosto de 2020

o estrangeiro

O estrangeiro me ensinou sobre o silêncio, assim como o mar me ensinou sobre movimentos: por observação. Os gestos em vão, o olhar não decodificado, o tom perdido na pupila dilatada de medo, as palavras sem nenhum significado fora de seu lugar de (re)conhecimento.

Ser estrangeira em meu próprio círculo, entre os íntimos, me fez buscar o silêncio como forma de sustento. Sem saber que seria bem alimentada, me joguei em meio à falta, sem medo de não ser entendida.

Eu me pertenço menos quando uso as palavras, apenas uma observação. É uma peculiaridade que construí enquanto me relacionava com outras pessoas. Lidando com  expectativas e frustrações. A forma como nada fica claro, o uso esculhambado dos significados, a ganância em tornar a própria fala em única relevante.

O silêncio não exige nada de mim. Não há ruídos na comunicação. Nem explicações sem garantias. As palavras assentam, encorpam, algum significado ascende de algum reentrante. E eu me torno completamente entregue.

Com o pequeno silêncio aprendi a dar conta de observar. A dizer alguma coisa pelas pontas dos dedos. A respirar devagar, e ouvir quando inspiro. Parece que a pele entende, os pelos eriçam. São os sentidos confortáveis em seus estados naturais. 

Quando há alguma perda, começando pelas pequenas, não me sinto desprevenida. Parece que todas as pequenas irregulariades da superficie já deixaram suas amostras no silêncio. Observo a escassez com o olhar de gestação, pois sei que algo há de nascer.


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