sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

pintaram aquele vulto na parte de cima da parede - uma quase verdade

Desacordou a contragosto e apalpou a cama, mas uma vez vazia. Levantou rapidamente sem tocar os pés no chão. Escovou os dentes ainda no escuro, tomou banho de olhos fechados e vestiu qualquer roupa limpa. Desceu as escadas de casa sem saber aonde iria dar. A rua escura ainda cheirava ao sol forte do dia anterior. Tudo parecia estar tão vivo. O carro passou quente, o corpo também, voando pelos sinais abertos, fechando.

Tão rápido, já estava a bater desesperadamente na porta. Pancadas e chutes, o corpo deformado pela ausência. E essa casa estava vazia? O corpo continuava a se jogar na porta, como um pedaço de madeira, como um pedaço de algo que funcionasse, como um guindaste de força, mas nada. A porta estava fechada.

"Strong as you've seen, bold as you behave..." mais vezes, mais vultos de corpos na porta até ela se abrir. 

Apalpou a carne, mais uma vez vazia. Sentou no chão. Abriu os olhos e chorou. Não havia lágrima, nem gemido, nem dor. Era choro fechado, desses que ardem o estômago. Fechou os dedos dentro da palma novamente. Bateu em seu próprio rosto, nos olhos, na boca. Bateu tanto que sangrou e desfez. Os dentes em farelos, um cachorro de longe observando, um velho sentado em uma cadeira dormindo, sangue escorrendo pelo resto.

Um calor e as coisas desembaçando.

Acordou.

Apalpou a cama e lá estava ele, dormindo com a boca aberta.

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