terça-feira, 25 de agosto de 2020

além-mar

meus braços possuem abraços abertos
e tatuagens de mapas
de lugares nunca
antes avistados.

sou ilha e ao mesmo tempo
espaço vago
sou ilha e ao mesmo tempo
o sujeito nela preso
sou ilha e ao mesmo tempo
os mares estrangeiros

meus braços abertos
clamam e rejeitam
desbravadores

meus braços abertos
cheios de traçados
certeiros

meus braços abertos
apenas abraços
intactos.

segunda-feira, 24 de agosto de 2020

Os pés muito firmes no chão

Cabelos, poeira, pedaços de escombros, de pessoas antigas, de recordações, rodando ao som do silêncio das mil valsas. Tudo ao meu redor tomando proporções de rajadas: lembranças criando forças de Golias, aniversários rasgando a pele do rosto, pós de chãos e objetos não utilizados sendo depositados nos cantos dos olhos fechados. Vozes altas, falta de vozes, vozes altas... valsa. Tudo ao redor passa com pressa e passa mais uma vez, mais uma vez.

Levanto a mão por instinto. "Respirar" - penso. Inspiro. Toco o silêncio das coisas que moravam dentro de mim e que agora se despedaçam em pequenos núcleos e caos,  para tornarem-se novidades e retornarem para dentro do que passa depressa. Levanto a mão por repetição. "Tocar" - tento fazer parte. Não abro os olhos. São muitas tormentas. Eu ei de calmaria.

quinta-feira, 20 de agosto de 2020

o estrangeiro

O estrangeiro me ensinou sobre o silêncio, assim como o mar me ensinou sobre movimentos: por observação. Os gestos em vão, o olhar não decodificado, o tom perdido na pupila dilatada de medo, as palavras sem nenhum significado fora de seu lugar de (re)conhecimento.

Ser estrangeira em meu próprio círculo, entre os íntimos, me fez buscar o silêncio como forma de sustento. Sem saber que seria bem alimentada, me joguei em meio à falta, sem medo de não ser entendida.

Eu me pertenço menos quando uso as palavras, apenas uma observação. É uma peculiaridade que construí enquanto me relacionava com outras pessoas. Lidando com  expectativas e frustrações. A forma como nada fica claro, o uso esculhambado dos significados, a ganância em tornar a própria fala em única relevante.

O silêncio não exige nada de mim. Não há ruídos na comunicação. Nem explicações sem garantias. As palavras assentam, encorpam, algum significado ascende de algum reentrante. E eu me torno completamente entregue.

Com o pequeno silêncio aprendi a dar conta de observar. A dizer alguma coisa pelas pontas dos dedos. A respirar devagar, e ouvir quando inspiro. Parece que a pele entende, os pelos eriçam. São os sentidos confortáveis em seus estados naturais. 

Quando há alguma perda, começando pelas pequenas, não me sinto desprevenida. Parece que todas as pequenas irregulariades da superficie já deixaram suas amostras no silêncio. Observo a escassez com o olhar de gestação, pois sei que algo há de nascer.


Ver as ruas em silêncio.
A qualquer momento manchar os olhos de cimento.
Dessa minha existência dura, cinza e concreta.
Que mesmo quente, faz rolar pedras.

de vez em quando

Palavra
Conteúdo encontrado em rachadura estrutural.
Silenciosa em corpo sintomático.
Adormecida em pele áspera.

Ontem, em meio à umidade que somente palavra
traz, veio tudo:
água, alga, espuma, peixe, grão.

Vazamento
Às vezes pingo, às vezes rastro.
Os olhos inchados, corpo sentindo.

Silêncio
Corpo transbordou, água assentou,
acho que não vai ceder, eu não quero ceder,
tudo que está aqui faz caber.


beira-mar

a sombra do arranha-céu escureceu o mar por um minuto vi petróleo no lugar da sutileza da sombra a água escura dançava ao som dos ventos  me...