sábado, 27 de fevereiro de 2021

beira-mar

a sombra do arranha-céu escureceu o mar

por um minuto vi petróleo no lugar da sutileza da sombra
a água escura dançava ao som dos ventos 
meus olhos viam beleza onde a sujeira da cidade residia

o arranha-céu escurecei o mar
e eu era testemunha do seu alastramento

terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

concreta

ver as ruas em silêncio

a qualquer momento

manchar os olhos de cimento

dessa minha existência dura, cinza, concreta

que mesmo quente, faz rolar pedras

domingo, 21 de fevereiro de 2021

para te dizer que sim

Na decência do não dizer, fiz minha essência. Para que ninguém me acessasse. Neguei. Pedidos, sentimentos, os outros.

Na ausência de sentidos completos, busquei somente a mim. Gostei do que encontrei, quis proteger. Ninguém entrava mais. Neguei pessoas, pedidos, sentimentos... cresci demais. Dentro dessa minha alegoria, transbordei. 

Abri um pouco a janela, escorri. Gostei. Abri as portas, sai pelos poros, boca, dedos. Foi assim que comecei a dizer que sim, talvez fosse bom doer.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

pintaram aquele vulto na parte de cima da parede - uma quase verdade

Desacordou a contragosto e apalpou a cama, mas uma vez vazia. Levantou rapidamente sem tocar os pés no chão. Escovou os dentes ainda no escuro, tomou banho de olhos fechados e vestiu qualquer roupa limpa. Desceu as escadas de casa sem saber aonde iria dar. A rua escura ainda cheirava ao sol forte do dia anterior. Tudo parecia estar tão vivo. O carro passou quente, o corpo também, voando pelos sinais abertos, fechando.

Tão rápido, já estava a bater desesperadamente na porta. Pancadas e chutes, o corpo deformado pela ausência. E essa casa estava vazia? O corpo continuava a se jogar na porta, como um pedaço de madeira, como um pedaço de algo que funcionasse, como um guindaste de força, mas nada. A porta estava fechada.

"Strong as you've seen, bold as you behave..." mais vezes, mais vultos de corpos na porta até ela se abrir. 

Apalpou a carne, mais uma vez vazia. Sentou no chão. Abriu os olhos e chorou. Não havia lágrima, nem gemido, nem dor. Era choro fechado, desses que ardem o estômago. Fechou os dedos dentro da palma novamente. Bateu em seu próprio rosto, nos olhos, na boca. Bateu tanto que sangrou e desfez. Os dentes em farelos, um cachorro de longe observando, um velho sentado em uma cadeira dormindo, sangue escorrendo pelo resto.

Um calor e as coisas desembaçando.

Acordou.

Apalpou a cama e lá estava ele, dormindo com a boca aberta.

estrelas derretidas

O corpo do menino fazia-se confortável no colo da mãe. A ponta dos dedos acariciavam suavemente o pelo da pele do braço que o segurava. A tarde pintando suas cores alaranjadas no céu. Muitas janelas abertas no ônibus que um dia foi amarelo. Ventos e cabelos no rosto. Agora é a hora da ponte. O vento aumenta. Olhei para o lado e vi novamente o menino. Quanta alegria naquele pequeno ao ver o sol nadando em pequenas partículas brilhosas na água clara.


- Mãe, o mar é feito de estrelas derretidas?


A mãe não responde. Ela provavelmente nem estava ali. Meu coração dispara. E eu começo a ver milhares de estrelas brilhando no raios que o sol deixa refletir na água.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

você acendeu meu corpo

encostou o tempo nos dedos

transmitiu uma distância e meia entre a sua, a minha boca


o fluorescer do corpo deu orientação

aos caminhos ocultos, 

por entre minhas pernas, o universo, sua multidão


esperamos as cinco modulações 

para olhar para a mesma direção

seguindo diferentes vias, sem olhar para trás



beira-mar

a sombra do arranha-céu escureceu o mar por um minuto vi petróleo no lugar da sutileza da sombra a água escura dançava ao som dos ventos  me...