por um minuto vi petróleo no lugar da sutileza da sombra
a água escura dançava ao som dos ventos
meus olhos viam beleza onde a sujeira da cidade residia
o arranha-céu escurecei o mar
e eu era testemunha do seu alastramento
ver as ruas em silêncio
a qualquer momento
manchar os olhos de cimento
dessa minha existência dura, cinza, concreta
que mesmo quente, faz rolar pedras
Na decência do não dizer, fiz minha essência. Para que ninguém me acessasse. Neguei. Pedidos, sentimentos, os outros.
Desacordou a contragosto e apalpou a cama, mas uma vez vazia. Levantou rapidamente sem tocar os pés no chão. Escovou os dentes ainda no escuro, tomou banho de olhos fechados e vestiu qualquer roupa limpa. Desceu as escadas de casa sem saber aonde iria dar. A rua escura ainda cheirava ao sol forte do dia anterior. Tudo parecia estar tão vivo. O carro passou quente, o corpo também, voando pelos sinais abertos, fechando.
Tão rápido, já estava a bater desesperadamente na porta. Pancadas e chutes, o corpo deformado pela ausência. E essa casa estava vazia? O corpo continuava a se jogar na porta, como um pedaço de madeira, como um pedaço de algo que funcionasse, como um guindaste de força, mas nada. A porta estava fechada.
"Strong as you've seen, bold as you behave..." mais vezes, mais vultos de corpos na porta até ela se abrir.
Apalpou a carne, mais uma vez vazia. Sentou no chão. Abriu os olhos e chorou. Não havia lágrima, nem gemido, nem dor. Era choro fechado, desses que ardem o estômago. Fechou os dedos dentro da palma novamente. Bateu em seu próprio rosto, nos olhos, na boca. Bateu tanto que sangrou e desfez. Os dentes em farelos, um cachorro de longe observando, um velho sentado em uma cadeira dormindo, sangue escorrendo pelo resto.
Um calor e as coisas desembaçando.
Acordou.
Apalpou a cama e lá estava ele, dormindo com a boca aberta.
O corpo do menino fazia-se confortável no colo da mãe. A ponta dos dedos acariciavam suavemente o pelo da pele do braço que o segurava. A tarde pintando suas cores alaranjadas no céu. Muitas janelas abertas no ônibus que um dia foi amarelo. Ventos e cabelos no rosto. Agora é a hora da ponte. O vento aumenta. Olhei para o lado e vi novamente o menino. Quanta alegria naquele pequeno ao ver o sol nadando em pequenas partículas brilhosas na água clara.
- Mãe, o mar é feito de estrelas derretidas?
A mãe não responde. Ela provavelmente nem estava ali. Meu coração dispara. E eu começo a ver milhares de estrelas brilhando no raios que o sol deixa refletir na água.
você acendeu meu corpo
encostou o tempo nos dedos
transmitiu uma distância e meia entre a sua, a minha boca
o fluorescer do corpo deu orientação
aos caminhos ocultos,
por entre minhas pernas, o universo, sua multidão
esperamos as cinco modulações
para olhar para a mesma direção
seguindo diferentes vias, sem olhar para trás
dizer sim não é uma metáfora de como deve-se viver a vida
dizer sim é minha maneira de aceitar que tudo é imperfeito
e que mesmo assim, não vejo motivos para negar.
na minha introversão, sim é contra-ataque
no contra-ataque, se paro e te ouço é de ouvido
se digo sim, é por desabafo, é de querer te ouvir.
o tanto de tempo que o tempo tem, o trava-línguas, não conseguimos dizer, o tempo tem... três horas da manhã, e o tempo só passou. ou ele só passará. tempo não tem, só quando paro para prestar atenção na minha respiração, ai sim, o tempo tem.
não era sonho, não era tempo de abrir os olhos
caminhar entre a queda do corpo inerte
e a saudade da resiliência
deixar de sentir o lago
buscar o movimento dos mares
remar sem bote em direção à luz
Cabelos, poeira, pedaços de escombros, de pessoas antigas, de recordações, rodando ao som do silêncio das mil valsas. Tudo ao meu redor tomando proporções de rajadas: lembranças criando forças de Golias, aniversários rasgando a pele do rosto, pós de chãos e objetos não utilizados sendo depositados nos cantos dos olhos fechados. Vozes altas, falta de vozes, vozes altas... valsa. Tudo ao redor passa com pressa e passa mais uma vez, mais uma vez.
Levanto a mão por instinto. "Respirar" - penso. Inspiro. Toco o silêncio das coisas que moravam dentro de mim e que agora se despedaçam em pequenos núcleos e caos, para tornarem-se novidades e retornarem para dentro do que passa depressa. Levanto a mão por repetição. "Tocar" - tento fazer parte. Não abro os olhos. São muitas tormentas. Eu ei de calmaria.
O estrangeiro me ensinou sobre o silêncio, assim como o mar me ensinou sobre movimentos: por observação. Os gestos em vão, o olhar não decodificado, o tom perdido na pupila dilatada de medo, as palavras sem nenhum significado fora de seu lugar de (re)conhecimento.
Ser estrangeira em meu próprio círculo, entre os íntimos, me fez buscar o silêncio como forma de sustento. Sem saber que seria bem alimentada, me joguei em meio à falta, sem medo de não ser entendida.
Eu me pertenço menos quando uso as palavras, apenas uma observação. É uma peculiaridade que construí enquanto me relacionava com outras pessoas. Lidando com expectativas e frustrações. A forma como nada fica claro, o uso esculhambado dos significados, a ganância em tornar a própria fala em única relevante.
O silêncio não exige nada de mim. Não há ruídos na comunicação. Nem explicações sem garantias. As palavras assentam, encorpam, algum significado ascende de algum reentrante. E eu me torno completamente entregue.
Com o pequeno silêncio aprendi a dar conta de observar. A dizer alguma coisa pelas pontas dos dedos. A respirar devagar, e ouvir quando inspiro. Parece que a pele entende, os pelos eriçam. São os sentidos confortáveis em seus estados naturais.
Quando há alguma perda, começando pelas pequenas, não me sinto desprevenida. Parece que todas as pequenas irregulariades da superficie já deixaram suas amostras no silêncio. Observo a escassez com o olhar de gestação, pois sei que algo há de nascer.
pele repuxada tentando recobrir outras dores
pele fina por cima de sangue grosso
morta de vontade
cheia de cicatrizes
e silêncios
nosso ângulo realmente não é mutável
e os cálculos nunca estiveram certos
por mais que eu mexa nessas linhas
as palavras serão sempre o mesmo retrato
que revelei e deixei na sua mesa
sei, não é da nossa natureza minuciosos planos
e os coeficientes não fazem nenhuma diferença
por mais que a gente arraste firme os fios
a deflexão do tempo é certa.
começar a falar é um exercício natural para a maioria das pessoas que conheço. abre a boca, que deve estar um pouco úmida de saliva, dá uma cafungada no ar, pensa rapidamente na ordem das palavras, fala.
começar a escrever é diferente. percebo a dificuldade. logo cedo, ainda na escola, as crianças recebem os modelos de escrita. "o que você sente, o que você quer dizer, deve caber aqui". crianças sentem demais. elaborar nessa idade é só um começo. as pautas da folha tornam-se dez vezes mais do que vinte. "quantas linhas, professora?". "no mínimo dez", cem.
eu aprendi a elaborar cedo, de acordo com meus conhecidos. escrever cedo, ler cedo, desenhar cedo. em casa, no meu diário, não tinha muito isso modelo de escrita. a parede da minha casa era folha A0, gigante. e tinha também minhas dificuldades com a escrita, com a vírgula, com os verbos. mas continuava escrevendo.
falar era um pouco mais complicado até meu irmão nascer. depois desenvolvi uma maneira ingenua e infantil de fala, na adolescência falei demais, nossa, como falei. na faculdade, experimentando tudo, acho que foi meu corpo que falou. depois, lendo o tanto que eu li, emudeci. aos vinte e poucos comecei a usar as palavras como profissão, professora. na sala de aula sou uma atriz. nem me reconheço. desenvolta, cheia de dicção, leitura dinâmica, dramática, um sucesso. fora da sala de aula, um sorriso ameno.
todo esse rodeio para dizer que, agora na quarentena, voltei a escrever. acho que é porque não estou atuando em sala de aula. mas estou com saudades. não sei.
O estrangeiro que guarda suas palavras, comunica-se com
gestos, olhares, toques. Àquele que diz e não é compreendido, exerce o
silêncio. O silêncio como falha na comunicação. O que fica no ar. O que se espalha.
O pequeno silêncio: entrelinhas.
O estrangeiro me ensinou sobre silêncio, assim como o mar
me ensinou sobre movimentos: por observação. Calculo que fomos feitos para
esses pequenos silêncios, os grandes nos devora, quando sobra, morre à míngua.
Nunca vi alguém voltar desse escafandro, morre-se sufocado de si.
Eu me pertenço menos quando falo, já observei também. Mas essa é uma peculiaridade que construí enquanto andava. Me relacionar com as pessoas me transformou. As pessoas exigem demais de mim, o mundo, as imagens, os números, as presenças, minhas ausências...
O silêncio nada me exige, além do meu mais honesto silêncio. Posso fechar os olhos, posso sorrir sem explicar, chorar quando me derramo, sem um A. Me preencho de ser eu e silêncio.
Mas como fui feita para o pequeno e epifânico silêncio, acabo escrevendo, tomando esse café.
a sombra do arranha-céu escureceu o mar por um minuto vi petróleo no lugar da sutileza da sombra a água escura dançava ao som dos ventos me...